Dê uma espiadinha!

Olá, amigos!!! Sou Daniel Oliveira, professor por ofício, arquiteto da palavra por natureza. Eis aqui, no meu blog, textos poéticos e mini-contos de minha autoria. Leia-os com os olhos da alma, sorvendo em cada verso e em cada palavra mensagens que possam falar confidencialmente no seu coração.
Blogmania
(Daniel Oliveira)
A nova mania virtual do Colégio Nossa Senhora do Montesserrate é o chamado blog, abreviação da expressão inglesa weblog. Quem inventou não sei, mas verdade é que já está tomando conta do ideário de nossos alunos. É a palavra que, no momento, ecoa pelos corredores do colégio, ressoando mesmo fora do âmbito escolar:
“Meu blog está um show!”.
“O seu o quê mesmo...?”.
“Meu blog.”.
“Ah... entendi bloco.”.
Os limites da informática parecem não ter fim. Primeiro foi a onda do e-mail, forma de se comunicar via Internet que se pareou ao telefone. A palavra, então, veio a fazer parte do vocabulário literário, musical e mesmo cotidiano de nosso povo tão sofrido real e virtualmente. Existiam (e existem ainda) aqueles para quem a palavra soava como algo fora deste mundo. Mas isto é questão de tempo. Ao e-mail, seguiu-se a onda do MSN. Quem ainda não tem um, que atire a primeira pedra! Maneira muito “bacana” de se comunicar em tempo real esta do MSN. Os laços profissionais, de amizade e de amor se fortificaram, trazendo à tona uma nova forma de se relacionar que, para a alegria do tímido, veio a calhar perfeitamente. O que não faltam são histórias de namoro e até de casamento por meio de sites de relacionamento e de MSNs.
Depois, e é bem recente, veio o Orkut, que são comunidades que se relacionam na Internet para tratar de temas de seu interesse e tribo. Como já se sabe, esta nova modalidade de serviço oferecida pela Google vem provocando polêmicas no Brasil, uma vez que algumas comunidades estão apregoando nela mensagens de racismo, preconceito e apologias ao crime.
Finalmente (pelo menos até amanhã, não sei, já que quase tudo é possível na Internet), vem à tona, de forma muito especial em nosso colégio, o fenômeno blog. Surge, então, uma nova nomenclatura que se junta ao do Internauta: o “bloguero”. Blogar é a nova “onda” de nossos alunos. Coisa séria, mas desenvolvida de uma forma muito dinâmica e viva. É perceptível a feição de contentamento de nossos alunos ao verem o produto de seu esforço intelectual exposto em uma página pessoal só dele, com a sua cara e gosto. Certamente, ver seus textos publicados é, para eles, de suma importância, pois precisam ser lidos, precisam ser compreendidos em todas as suas potencialidades. Nesse sentido, saber que, através do blog, suas idéias poderão chegar a qualquer ser que viva sobre a terra, traz-lhes grande estímulo ao processo de produção e criação.
Não se sabe até quando este “negócio” de blog ainda vai perdurar aqui em nosso colégio. Mas fato é que esta nova modalidade da informática já está enraizada no imaginário discente. Que seja, portanto, eterno enquanto dure, sempre ecoando pelo mundo virtual e real a voz do conhecimento, o grito de reação ao fatalismo e inércia que porventura venha se abater contra nossos alunos. E que sirva, desejavelmente, como um novo e imprescindível instrumento em nossas mãos.
A Terra em Chamas
(Daniel Oliveira)
Um céu enegrecido se apresentava naquela manhã, com muitas nuvens e um sol ralo; era um sinal ruim para os mais velhos. Para os outros, especuladores, apenas um sinal de chuva vitalmente esperada. E há muito que não chovia ali, em Torres. Há muito sobre a terra não caía um pingo de água, e seus andantes que por este chão cambaleiam sentem a necessidade de uma geral limpeza.
Ar estranho o deste dia, é o que penso. Absortamente olho para além da bela serra azul que se exibe a meus olhos ainda intacta. Uma nuvem negra se assentava sobre seu cume, parecendo um ninho.
Enquanto olho magnânimo, imagino seriamente sobre algumas coisas. Lourdes é sim uma mulher que conta muitas estrelas, a minha mulher que me persegue às vezes, que às vezes eu a persigo. Vejo agora que Lourdes está sentada na cadeira de balanço, que revira os olhos dizendo palavras sem nexo, fazendo círculos com o dedo indicador, como a descrever a trajetória das nuvens obscuras que se ajuntavam sobre a serra. Noto esses trejeitos de Lourdes e pouco me comovo. Penso que já estou acostumado, penso muito, sabe, na vida. Penso até demais na vida. Tem horas que deveria mesmo era ficar falando tempo todo a todo mundo que estou por morrer, que estou por desistir. Mas me questionariam acerca da sobrevivência de Lourdes “mas e Lourdes, seu Jarvales, mas e Lourdes?” Olho para ela e extraio alguma força, arranco dela algo seiva, arranco carne também. Por que teria de ser assim? Por que? As nuvens sobre a serra sobremaneira me preocupavam. Sim, porque nunca pousaram sobre ela, nunca a contaminaram com seu atmosférico ar nevoento. Loudes me encarava e voltava os olhos para a serra, continuava a gesticular. Era essa a forma de me dizer que estava também preocupada, que teríamos de rezar como nunca uns pai-nossos. Realmente, as nuvens que se sobrepunham à nossa terra tinham a aparência de mau agouro. Manifestavam-se como o prenúncio de um acontecimento que certamente nos atingiria em cheio a crista. Esta era a sensação de meu pai Tião ao vislumbrar nuvem negra que se aproximava da serra tão belamente azul. Pai Tião percebia nas formas das nuvens um o aviso de que deveríamos ter cautela, sensibilidade. Sentir a presença do mau para que ele não nos surpreendesse desarmados e entregues à dor.
O tempo aquele era espinhoso, e a ordem normal dos acontecimentos se subverteram ao Deus- dará. Vigiar pelas nossas vidas enquanto tudo parecia vir contra nossa calma era a ordem que necessariamente se incitava a nossos corações mutantes. Vigiar o meu corpo quando o meu corpo rápido se deteriorava representava-se já algo difícil. Agora, imaginar colocar o meu corpo frágil frente a qualquer bala cruel do revoltoso contra o corpo inocente e débil de Lourdes, ah, isso era por demais paixão desmedida a um ser vivente apenas, que gesticulava e murmurava umas palavras incompreensíveis, mas que de alguma forma suscitavam sentido.
Mas até que gosto de tê-la do meu lado, mesmo só na aparência. Às vezes me pego a pensar se realmente Lourdes me ama, se ela deveras nota que estou aqui para ajudá-la contra o sarcasmo da gente estúpida da cidade, da gente bruta dos arredores daqui de Serra Azul. Sei que alimento cá para mim a crença de que Lourdes vai se libertar, que ainda vai me dizer, conscientemente, que a vida vale a pena sim, que sonhar ainda é possível. Mas aí penso, e as palavras parecem sair pelos poros, que o sentido de tudo é apenas continuar vivendo e respirando, alimentado o corpo de coisa qualquer. Estou lotado de sentimentos tolos, sei. Mas sou eu quem digo isso. Fato é que mil e uma pessoas pensam assim como eu. Pensam às vezes até pior. Quando não se matam, entregam os pontos. Não faço isso, não. De maneira nenhuma. Necessito ver o mundo assim, este emaranhado de nuvens negras, porque senão corro o risco de ficar sentado aqui nesta varanda e achar que tudo está ganho, que a terra está boa e viva. Ainda bem que tenho duas mãos, duas pernas e uma cabeça que ainda pensa. De Lourdes se desfalca a cabeça, que inevitavelmente compromete todo o resto. Entretanto, como disse, a presença dela faz meus braços e minhas pernas terem forças, faz o meu peito se avançar contra a labuta diária do campo. Poderia ser tudo pior. Poderia, sim. Isso penso dia e noite. Isso é que me sustenta a plantar e colher as vinhas do campo. Se não fossem aquelas nuvens negras a se assentarem sobre a bela serra azul de nossos sonhos, fato é que o dia seria bem melhor, e eu não ficaria aqui por horas pensando estas gelatinas.
“Daniel”
(Daniel Oliveira)
Meu nome? Daniel.
Daniel da lua
Do sol
Do céu...
Eu sim,
Meio poeta,
Meio atordoado nessa metafísica que é viver.
Sim, eu.
Vivo e respiro ainda.
Estou aqui sobre uma ponte,
Uma ponte que me liga ao gigante que não sou eu adormecido.
Eu às vezes esquecido,
Gritando rouco,
Um pouco desvanecido.
Agüentando a barra enquanto posso,
Equilibrando a dor e o sorriso em um tom inevitável de dissimulação.
Sou Daniel, escravo da palavra,
Da poesia;
Escravo da azia,
E da dor...
Pigmeu que às vezes sou,
Golias que às vezes engole a dor
Que pulula em meu peito magro,
Arrasado um pouco pelo peso
Do chumbo-fardo,
Do pesadelo que,
No meu corpo,
Em cheio,
Embate a bala perdida do medo.
Sou Daniel papel no mundo,
Mas que no céu,
Sendo filho de Deus,
O Davi desbravador do Golias Filisteu!
Meu nome?
Daniel!
Codinome?
Céu!
Eu entremeio a lua e o sol,
Eu mais parecendo uma branca, mas resistente,
Folha de papel...
Extravasar
(Daniel Oliveira)
Você que ri. Quer rir ou chorar? Chore um pouquinho, sorria de frio no gemer dos dentes. Cante uma música feia.
Pondere sem pensar, saia correndo, suspire fundo. Fundo. Bem fundo...
Pegue, então, uma cadeira. Vá até a rua, suba nela, a cadeira (cuidado para não se escorregar...).
Olhando para os lados, para o céu e para os seus (?), grite, pois, desbocado, único e cruel:
__ Olhe eu aqui!!! Olhe eu aqui, gente!!!
Uma pedrada
(Daniel Oliveira)
Uma pedrada nas costas, levei uma pedrada.
__ Que te acertou?
__ Um homem com raiva, com fome, com sede.
__ Ele sorriu?
__ De maneira alguma; antes, lamentou.
__ Por que?
__ Certamente porque não queria fazer aquilo.
__ E você, o que fez?
__ Fiz nada, em absoluto.
__ Nem chorou?
__ Um pouco só, pelo homem.
__ Valia a pena?
__ Tudo vale a pena se a pena não é pequena.
__ Ele, o homem, te viu chorando?
__ Sei lá! Acho que viu.
__ Com assim acha?
__ Ele também estava chorando.
__ Chorando?
__ Sim, chorando. Ele se arrependeu.
__ Se arrependeu?!
__ Sim.
__ E você, o que fez então?
__ Fui até ele e estendi-lhe as mãos.
Senhor
(Daniel Oliveira)
Sois somente Senhor santo,
Sem sandice, sem sanha.
Sou seu servo, suntuoso salvador:
- sábio sacerdote, sombrio sarcástico.
Sendo seu soldado, se sonho serei salvo,
Se sujo serei sórdido...
Segui sentindo solitário, Senhor!
Sozinho, sobrevim sob seu solo silenciosamente,
Servindo solerte, superando subversões.
Subjuguei sentimentos sensuais, satânicos!
Segui sua seita séria, sequer santifiquei senão sua suprema soledade...
Sem significação, sobreveio-me sismos;
Senti-me sinuoso, sem siso.
Sociedade sombriamente sacrilégica!
Safe-me sobre-humanamente, santíssimo!
Seja solícito, Senhor.
Solva sangue sagrado sobre seus servos,
Seja semeador sensato, serei saudável semente:
- semearás saúde, saciarás sede.
Se sobrevier sofrimento, serás socorro supremo.
Sim, solicito serenidade, simplicidade, sobriedade,
Simpatia!
Suplico sabedoria – sapiência sem sujeira!
Sussurrando som sublime, salmistas santificarão
Seu sacro ser.
Sopranos soarão suave, saudando sua suma santidade.
Sinuosa serpente simulará sinistra sedução,
Sedução satânica!
Safar-me-ei sorrindo,
Sondarei-me superego,
Seguirei-lhe Senhor sincero,
Serei-lhe sempre submisso!
Seu ser se sujeitou sofrer severamente: sobejamente sente...
Sucedeu-lhe saqueamentos, sanou sangramentos.
Sacrificado, sucumbiu.
Soberano Senhor subiu!
Senhor, Senhor, Senhor!
Seu senso sagaz sentenciará sepultura se sanguinários,
Salvaguardará-nos se solidários sorridentes.
Sob severa sentença suprema,
Seremos salvos?
- segredo sigiloso, sagrado...

De repente...
(Daniel Oliveira)
De repente, Jarvales, o gato preto caiu em sua cabecinha torta. Você, então, lutou com o gato, maltratou o gato, enforcando-o em sua ira. Entretanto, o gato era você, o gato preto perdido na escuridão. E, às vezes, pensando nisso, pego-me a perguntar sempre: onde está a branquidão das coisas, aquelas nuvens sintetizadas - a bruma, espetáculo das formas? O que vejo é que não há mais disso aí; o que há é o objeto mofo, saído do breu, do céu escuro, a vida assim exposta, estigmatizada, uma sina.
Pululam no ar miríades desses seus suspiros que sempre vão dar nalgum lugar onde existem somente barreiras. Ninguém que os afague com o gesto do acato, da ternura. E você então grita, assim mesmo no estômago da noite, que é para os monstroseres ouvirem a sua voz igualmente horrenda, irrequieta, pidona. A terra já tentou sugar você, tingir sua pele de um tom telúrico, afável, por um instante que fosse. Entanto, sua negação, seu jeito andarilho de ser, sem ponto certo na circunferência de seu carrossel estonteante. Aqui e ali, suas manias... Haja Deus! A postura que você adota para com seus amigos (?) é no mínimo algo de nos deixar boquiabertos. Isso mesmo. Sair por aí esbofeteando todo mundo com murros e pontapés - este agora o seu lado negro, sua maneira de se manifestar, um cumprimento à boa hospitalidade alheia.
Até amanhã talvez você peça desculpas a sua mãe que já morreu há muito tempo, a seus cachorros banguelos e famintos. Aí é que daremos graças, e bendiremos a Deus, seu poder de transformação dos espíritos, sua benevolência acerca de você já não tão virgem assim. Quero vê-lo se rendendo à população vítima sua, os semblantes de espanto pairando sua fronte naquele dia cinzento, porém de um novo nascimento.
Até amanhã - repito - as forças das águas não serão as mesmas, e a fome que você sentia até ontem é agora saudade maldita e intrusa. Disseram-me que havia um sentimento obscuro debaixo de suas axilas, mas uma dor no estômago o incomodava sobremaneira o dia todo. Aí é que está o seu ódio, muito embora ninguém tivesse a culpa. Entender isto é outra história para você. Algo assim como não acreditar na bondade das pessoas, seu jeito de ser e sentir.
O que me vinha à cabeça, de forma insistente, era sobre qual seria sua reação se a verdade se descobrisse diante dos seus olhos. Piorar essa sua postura seria por demais assassínio, terror e muito grito dentro de você.
Papagaios, pardais e periquitos...
(Daniel Oliveira)
As aves do céu pertencem ao céu. E se têm asas, é da natureza delas voarem entremeio aos ventos e nuvens desta atmosfera tosca.
Tive o prazer de voar com elas, as aves do céu. Criei plumagem sobre a pele de meu corpo torto, criei leveza nos ossos, uma imaginação que me fazia levitar na órbita da realidade, desprender-me dos subterrâneos do ar.
Assim foi que conheci as criaturinhas aladas que povoavam o enigmático abismo que cerceava a cúpula celeste do meu imaginário infante. Periquitos, papagaios e pardais... Eles que foram o alvo de meu olhar tão inocente, uma representação singela de meus gestos...
Agora as coisas tomam novo rumo. Já não mais os tenho, eles, os periquitos, os pardais e papagaios. Morreram todos de ataque cardíaco. Quisera eu engaiolá-los, mas meu senso de liberdade não me permitia que cometesse horrendo crime. Vê-los pairando contra as adversidades do vento era para mim algo de extrema grandeza. Lembro-me até quando ficava horas tagarelando com o papagaio que vovó criava no enorme quintal de sua casinha pequena. Falávamos sobre as questões da extinção, o que seria deles, os alados, num futuro não muito distante. Aqui e ali, os comentários maldosos acerca daquela nossa relação animalesca. Eu mais parecendo um besourão de asas, uma carcaça já deteriorada pelo tempo anômalo, e eu sabia que os gafanhotos haviam invadido naquela manhã mesma as plantações do mundo todo...
Necessário criar armadura sobre o corpo-frágil, criar dentes afiados, que é para mostrá-los. Meus amigos eram daquele jeito, produtos de um mundo que vocifera maledicências, um mundo-torto, cambaio e ao avesso do que deveria ser. Sentir é difícil onde já não há mais sentimento. Fazer-se entender onde todos, súbito, ficaram lelés e surdos, não mais satisfaz a intenção de mudança do anjo que se expressa sobre um tamborete colocado nas quatro esquinas do tormento.
E aí me esparramo pelo asfalto pegando fogo, lágrimas evaporando-se e tomando o céu. Pássaro pelado que sou, engaiolado.
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